4.2.10

eu quero falar da morte.
eu não apenas quero, não apenas desejo. é necessário. apesar dos tantos textos informativos, enciclopédicos e atas de terapias de grupo, os literários, prosa e verso, muito mais belos e instrutivos do que este meu, que já começa mal, enfadonho. Estes textos cheios de desculpas por existir, logo em seu prólogo, são mesmo medonhos. Mas é necessário que eu aprenda, que me seja um exercício. Que não seja de valia para alguém, como são os exercícios de matemática feitos no colegial.

eu costumo ler antes de escrever. Tudo que escrevo e que soa bobagem e é mesmo uma besteira, não significa que não tenha sido pensado. Meticulosamente, apesar das falhas de linguagem, essas malditas falhas técnicas. eu preciso dizer algo à morte. e não posso contempla-la. perder meus avós em tão poucos meses, um logo após o outro, em tão pouco tempo. é tão usual, mas perder alguém tão de perto, vê-lo perder pouco a pouco a força que o mantem de pé, ve-lo perder a ortografia na fala, as palavras sairem emboladas, não decifrar o que sai de sua voz. suas mãos perderem a autonomia, as pernas, a mobilidade. Vê-la com a pele amarelada, o sufoco, a falta de ar. e não poder fazer nada. retirar dos seus móveis os objetos que guardarei para os meus netos, a porcelana com mais de cinquenta anos que ficarão guardadas por mais cinquenta, talvez. tudo exposto, tudo no chão. tudo que estava tão cuidadosamente guardado em sua casa imensa de tantos quartos e tantos armários, tantos móveis, tantas coisas, estão agora espalhadas no chão. e o tempo, deixando cicatrizes em tudo, desde a pele dela e a minha, até as rachaduras nas suas belas porcelanas que enfeitavam como quadros as paredes.
o que fica e deixa também suas cicatrizes menos superficiais, amor. o amor faz os nós. o amor desata-os outra vez.
enquanto guardo suas coisas em jornais, para lembrá-la (e tambem ao meu avô), me pergunto o que deixarei para os meus netos, o que deixarei para quem vier. e sinto que esta pergunta é uma herança dela, e me agrada seu legado. não podemos ficar embrulhados em jornais.

28.10.09

Pergunto, se nunca mais verei você, nem fixarei meus olhos sobre sua solidez, que forma assumirá nossa comunicação? Você atravessou o campo, cada vez mais longe, tornando mais e mais tênue o fio que nos liga. Mas em algum lugar você existe. Algo de seu permanece.

12.5.09

não é saudosismo. estou lembrando de casos que aconteceram há muito tempo no passado.
mas o que é a memória de um velho? concordo que me julgues mal, não há mal nenhum nisso. estou contando os anos que tenho e são demasiado indiscretos para dizê-lo. Recordo você naquela roupa, justinha, que comprou com o meu dinheiro numa das boutiques da Praia.você era deslumbrante, se a memória não me falha, que corpinho! mas dava para todo o mundo, vadia! e eu lhe dava mordomias. se naquela época eu já era velho, agora sou velho ainda, mas um velho gago; e se quisesses dar pra mim eu não aguentaria o tranco, não tenho vergonha de dizer. Mas você também não deve estar tão moça, nem deve ter mais corpinho que lhe caibam aquelas roupas... devem estar as traças, numa vitrina de bazar, um brechô, talvez, se não estiverem tãtão fora de moda. sempre teve esse hábito de jogar tudo fora, se livrar de tudo que lhe pudesse render qualquer troco.Uma vadia. Talvez você nem fosse tão bonita, a fraca memória tem um hábito míope, como os sonhos de vez em quando.. Lembro das noites no café jazz, (nunca entendi a nomenclaturavisto que nunca serviam cafés, nem se tocava jazz) mas você também deve se lembrar, é uma mentiraque a bebida interfira. Você tropeçava nas escadas, bebia destilados, fermentados, qualquer alcool que lhe deixasse torta e no fim da noite, suficientemente corajosa, repetia sempre que nunca quis saber de mim, que eu era um velho sim, um velho carrancudo, e outros adjetivos que não frequentam o dicionário, você sempre foi ruim de vocabulário, torta de cachaça então. Não coloco toda a culpa na bebida, você me repugnava, reconheço. mas você não você ia embora. Oscilava, parasitária, gritava, um péssimo hábito. Depois silenciava, muda, ébria. Eu interrompia minha janta, com pavor do que comia. Mas prosseguia minutos depois.
Me sinto sólido, me sinto refeito daquilo tudo. Mas de vez em quando esvazio meu rosto, largo as ferramentas, deixo-as cair sem sentir se foi sem querer ou de propósito.

10.4.09

Mas estou neste quarto, reviro os papéis e procuro ferramentas para minha intelectualidade. Tenho dificuldade com as palavras quando elas sonorizam e tratam de você, e de mim. Tenho a voz gaga, o corpo esvaziado. Estou diante de um muro e fiz minha residência deste lado. E sinto que enquanto os outros passam, eu fico sozinho. Eu fico sozinho diante de todos eles, desaprendi a conversa. Preciso ir embora, coloco tudo nas costas e vou. Tenho pressa sem motivo justo, quero que isso seja passageiro, que para o corpo seja depressa. Mas tudo continua como ficou, e que silêncio prolongado!
talvez esse silêncio dos cães e dos bêbados, do mundo, que não consola nem oferece respostas, seja um espaço de tempo necessário, um esforço que as vezes ele provoca. Posso sentir a viração como se estivesse num barco.
é preciso ir além dos órgãos confinados neste emaranhado de outras células, e ossos e água até o lado de fora. As mãos se tocam, as palavras se concretizam, tudo em voz alta, tudo para que o outro escute e perceba. Não acredito num outro além de mim quando me exponho. O que sou dentro de um quarto?

18.3.09

noto uma oscilação no teu aspecto e o rosto que olhava agora a pouco não é o mesmo, não é mais o mesmo. algo oscila feito um interlúdio, talvez um espaço de tempo, uma pausa entre as partes, uma pausa oceânica. e toda residência é inconclusa e oscila feito o mar, feito o amor

notarei mais tarde o espaço entre o vento, talvez a distância do tempo, do que não entendo e talvez mais, muito mais. observarei a dor, que todo mundo sente.

e talvez algo desconhecido, ainda não escrito por ninguém, sonharei com ininterruptas vozes incorporando palavras ainda presas num futuro vasto.

há um buraco, uma fundação subterrânea, que nos separa corpo e todo resto que se aprofunda
os corpos aproximam-se, mas a razão nunca. entenda, o corpo oscila feito quem dança
mas a mente está estática.

5.1.09

_ Pousava os pés num degrau dos apenas três da escada que havia entre a varanda e o jardim, entre sua casa e o restante do mundo, e que se estende sem se dar conta. Suas mãos iam à cintura, às cinco da tarde, já todo serviço estava feito. Seu corpo arrastara-se de avental pela casa toda a manhã; depois era fazer com o próprio corpo um buraco de abrigo para o filho que, a esta hora, fica no quarto. Agora era não mais que o sol se pôr, entre os galhos que fazem a tosca porteira até as ramagens, de onde não se via e nem chegaria, ninguém. Era a porta bater e voltar (pela falta de trinco), o vento trazendo a poeira, as nuvens sombreando a alameda.

29.11.08

Fico sentada diante da mesa, mergulhada num barulho de tempestade que insiste do outro lado da porta; num silêncio de coisas que vez por outra nos acometem. E sinto aquele antigo impulso, o de ser lançado, inevitavelmente, na multidão das vozes. Apenas para ser quem escuta conversas vindas da cozinha, que não me dizem respeito e não me exigem resposta. A umidade desta tarde, e que será talvez por toda a estação, nos emudece junto, retira de mim qualquer esforço para erguer a voz. Fico insalubre e sufocante, tenho impulsos de chorar. E então sinto minha fraqueza, algo obscura, como os charcos cobertos pelo nevoeiro, como o relógio tiquetaqueando na gaveta (por que tenho o costume de escondê-lo).