18.1.12

eu o vi então sorrateiro; em sonho, ou esquecimento?
entrego ao que tiver que ser, importa se acovardo ou me desespero mesmo, mas como distinguir? não está nos livros, que já não os leio, nem em mim, alheia, porque não está apaixonada. estou numa balsa, em intermédio, o que falta é onde ir, o que me tem é o despreparo.

8.10.11

Recordo-te, vinhas me ser aporia

E sabendo disso, ainda o queria?

vi-te poeta vi-te rei, estro vagabundo

E o sendo ainda o queria tanto?

Mundando, velho continente

Artista, eu não quero esse destino!

"Je est une autre" Um desavim

Não te quero enciclopédico

Esse não é o meu desejo!

Leio para faltar a memória

E escrevo outonando...

E tudo resvala esquecimento

5.4.11

Era esse intervalo quase manhã e quase fim de noite. Daqui a pouco o barulho de meninos que se banham, mães que gritam desesperadas a procura de seus filhos, ambulantes... . Conquanto, há sons de nada, apenas rumores de água numa oscilação que até um pouco arrufa, ida e vinda repetida das ondas. O sol ainda escondido do outro lado, a textura de um rochedo ainda lívido, a viração sem obstáculo. O sol agora se estendia como tecido raro por sobre o mar, baixinho, como um sopro vagaroso iluminava os faróis, o cais, meus pés.

Encontrei você. Foi a primeira vez que vi esse rosto, em frêmito, nascendo espesso nas minhas retinas, contratempo, rubato, como tessitura de música. Não compreendi a ortografia das suas palavras, por sua fluência, sua pulsividade. Mas por alguns instantes a matéria lânguida se entende. Falamos a sós. Cedi o riso, deliciei-me contigo. Eu, nem antes monolítica, encontrei-me não em pedaços, mas preguiçosamente dissolvida, escorregadia, adoravelmente irresponsável.

O sol a pino a tudo iluminava. Preenchia todos os espaços-tempo, incrustava mesmo as quilhas dos navios. As castanheiras tinham sons de pássaros, o colorido penetrava até mesmo a matéria das brisas, havia muita cor no dia! O sol na crista das ondas construía efêmeros arcos-íris: feitos e refeitos continuamente, oscilavam venezianas, outras amarelo-ouro. As folhas das trepadeiras sempre sendo outras, e o ar azul-cinza, o sol desabava e aos poucos transmutava a temperatura da água.

Tu vieste de repente, pondo tudo em confronto, transformando tudo em amontoado de ruínas. Com a tua presença, as telhas desta casa não são mais as mesmas, este sapato não é mais um calçado. É por isso que me torno um outro, não posso reconhecer-me no espelho, nem com o tatear das minhas mãos, para quê estes dedos? Estes trajes não têm mais serventia, meu corpo não encontra mais postura, toda a residência é inconclusa e oscila feito o mar, feito o amor.

Você fez disso um hábito, me recolher entre escombros, entre passados. Sou recolhida pelo teu toque, pelo teu afeto. Tua boca oscila entre um hálito salgado e de fumo, como labaredas. Tu chegastes, palavra e som e silêncio, hábil com as mãos. Do outro lado da porta, meu corpo se quis espírito, se quis matéria, sôfrego e descomedido, se quis residência para teus gestos.

Te aproximas, pele, retina, lábios, teu corpo e teu alento, desfalecem-se as palavras, todo langor vai embora. Se o silêncio sendo seu ritmo, tudo fosse movimento. Sinto sua força, torno-me desordenada e impulsiva. Quando vens, licencioso, livre! te sorvo aos poucos o sorriso que me permites, sumo da lascívia. Fico sonora, múltipla, e sobre nós se descortina a vida, a dança sempre urgente da vida, que para ser vida se derrama em morte. Somos invadidos pelo encanto do desejo, abraçados, ébrios, bêbados, e entregamo-nos precipitados ao chamado dos corpos. Nesse enlace, nos adejamos longe, unidos por uma torrente de êxtase e alívio. Nossos corpos se comunicam. O meu, corrente de jovialidade, sussurra “pressiona-me, comprima-me!”

Submersa nessa atopia, a articulação dos sons da fala se atrofia, a voz tropeça, gagueja, perece. Entrecortada, não posso uma frase! Estou fascinada, embriagada de deslubramento, como se fosse para sempre! para sempre! como se tudo o fosse, exatamente como quiséramos, não como se houvesse, não como seria, não como existe!

Quando da felicidade, por seu torpor, inútil qualquer palavra. Sou reduzida ao minimalismo dos amantes. Toda tentativa é desnecessária. Só se comunica o que a antecede e o que a sucumbe.

As ondas aproximam-se como tropas de cavalaria, como se reivindicassem o espaço que lhes fora tomado: estabelecessem então um campo de batalha. O sol pela perpendicular observava o espetáculo, nenhum som de passarinho, nem das corujas que ali já se aprumam. As águas rebentam na praia como relinchar de cavalos, o barulho soa agora como chicotear de algozes, tendo todo território pelos flancos, por fim talvez o asfalto.

Estou em desassossego. Sofro, não consigo distinguir o motivo. Um silêncio absurdo toma a casa nessa manhã e uma chuva todo os espaços de fora. Sofro de um aniquilamento que me tortura o corpo, respiro desconsolada. Onde você está quando não comigo? A espera tem tortuosos labiritintos... quando você voltar, poderei respirar aliviada outra vez.


As sombras se alongavam na praia, dos edifícios, os traços de suas geometrias tornavam-se mais profundos. As ondas quebrantavam a areia, desmoronando a sólida arquitetura, perfazendo buracos, labirinto retilíneo, tênue curvatura. As pedras perderam toda a sua dureza.
O sol não encontrava mais pouso no chão, escondia-se inibido por trás dos prédios. Do outro lado, longe e à minha frente, navios esperam o apitar do porto e barcos atracados no cais esperam quem os devolvam ao mar. Invejo a precisão do horizonte no limiar dos meus olhos. Apenas na distância se faz.

Era o sol se pôr. E a vinda da noite em celestes amavios. Nada ponderava, toda resistência é amavelmente violável. Mas esta noite e a essa hora, as águas e as nuvens se adensam, como se alguém as perturbassem; nessa hora, o oceano é um castelo de sombras.

Estamos prestes a nos separar. Sou tomada pela inquietude, pela angústia da iminente ausência, a iminência da partida. Te escreverei às vezes para te retomar e me deixará sem resposta, na colheita de dúvidas. Então, como se te perdesse, apagarei quaisquer vestígios meus, trocarei meu endereço, sairei da casa dos meus pais, para que possa perdoar sua negligência caso me solicite outra vez. Te afastarás de mim, ignorante do que me foi, talvez até aborrecido de mim. Mas de alguma maneira, trespassarei entre os traunsentes, ciente da minha liberdade, da minha coruscante, embora fugaz, mas ainda sim, inefável solidez (foi você quem me fez assim). No entanto, não durará mais que um instante. Recolherei-me para trás das cortinas e disfarçarei meu luto. Nessa dolente despedida, não há mais lugar para mim. Estou no abismo.

Fico sentada na areia, mergulhada num barulho de tempestade que insiste do outro lado do oceano, onde talvez você esteja; há uma umidade desconfortável na noite e a maresia da praia emudece meu corpo. Calculo as horas que faltam para que a chuva alcance esse território. Em curta dilação, as nuvens se formam esparsas e indissolutas. Fico insalubre e sufocante, respiro soluços, tenho impulsos de chorar. E então sinto minha fraqueza, meus olhos encher-se-ão de lágrimas de saudades. Se pudéssemos ter alguma permanência. Mas tudo transmuda.

Deitarei meu corpo sobre o chão pra ver então a marcha das nuvens que se erguem feito torres, apartadas; que sei, fogem para qualquer lugar que você esteja, vão encontrar você. Então, nessa despedida, caio ainda mais, toda solidez me dada se desfaz num toque.
Enquanto a noite oscila suas pálpebras e as ondas desabam na praia, sonharei a vinda da manhã numa torrencial chuva oblíqua. Mas enquanto isso não posso dormir, porquanto da ressaca, as ondas quando recuam depois da rebentação deixam-me em completo desamparo. Através de uma fresta a luz perolada de um quarto de lua escapa e acorda a madrugada, acorda o mar, acorda a mim. Não me deixará sossegada com suas ininterruptas falhas, seu poder e naturalidade. Inevitavelmente me trará você. Mas sempre intermédio, vou ao encontro do incompassível tempo do recuo, não mais. Em que terras, quais continentes, pressiona com os pés o mundo, sempre outono, e que resulta sempre nesse quebrantar gesto de ondas?
e porque esse terrível receio, esse insustentável desejo de lançar-me ao mar?

5.11.10

"...os rostos de vocês esvoaçam como borboletas; as árvores parecem saltar para cima e para baixo. Nada se fixa, nada se acomoda neste universo. Tudo ondula, dança; tudo é rapidez e triunfo. No entanto, quando vejo vocês jogarem, deitada sozinha no chão duro, começo a sentir o desejo de ser escolhida, convidada, chamada por alguém que vem e me encontra, que se sente atraído por mim, que não consegue afastar-se de mim, que se mantém junto a mim quando me sento em minha cadeira dourada e meu vestido ondula a meus pés como uma flor. E nos retiramos para um canto sombrio, sentados sozinhos na sacada, e conversamos"

Virginia Woolf, As ondas

29.10.10

O que você é com ela não basta, não é suficiente, por isso extrapola. Precisa ser outro. Isso existe em qualquer relacionamento. Por isso temos amigos. Mas no seu caso, a infidelidade é mais grave porque você viola uma premissa que nos é tão cara: identidade. Ao tentar repetir a intimidade, uma experiência única, é como se contasse um segredo que pertencia antes apenas a vocês. Claro que não se quer o mesmo efeito quando se conta um segredo para outro, mas se usa a mesma premissa. Esse é o seu pecado. Obviamente que a experiência não se quer idêntica, não quer assumir o espaço da outra: eis o mais cruel, a sua violência, o porquê é traição. Ela não é apenas uma experiência que viola as premissas da singularidade ao repetir o que deveria ser único. Para quem é traído é inevitável o julgamento de valor: óbvio pensar que ela não se quer apenas como fuga da rotina: ela se quer melhor. Só se quer fugir da rotina quando não se está apaixonado. É dilacerante. E é covardia, porque o faz na clandestinidade. Não tem coragem de assumir, antes, que a experiência à dois está insuficiente, que precisa de outros estímulos. Tenta esconder o quanto está inseguro. Ilude, porque não confessa o esgotamento, a faz acreditar que a experiência é, não apenas o bastante, o que sugere limiar, mas ainda estimulante, não sendo mais. E se ainda é, não supre toda sua necessidade. Tornou-se a ordem naturalizada das coisas, cristalizou-se. Tornou-se medo. E você não recua com medo de que volte ao que era antes de conhecê-la. Porque ela uma vez também lhe tirou o ar, foi seu melhor estímulo. Não percebe que o medo da solidão impede o amor, esse desesperado que provoca desarranjos na ordem e nos horários, transforma tudo em amontoado de ruínas. Que é como construir castelos de areia próximos ao mar: precisará recompô-lo sempre. Nunca estará firmemente marcado, nunca suficiente. Nada persiste.

Trai pelo risco iminente da paixão, necessidade do gesto extremo, o gesto desesperado, o movimento. Mas é antes sopro que vento. Quer o prazer sem por nada em risco. O terá na medida do que oferece. Não arrisca nada, nada oferece, é miserável, ama pouco: nunca será vendaval. Enquanto condenado à clandestinidade, não é amor, que amor é entrega. É covardia, é fuga, não tem coragem de amar livremente. Ninguém é feliz na clandestinidade. Faz parte da fecilidade gritá-la aos sete ventos!

Também não é amor o que sente pela namorada, se também a ama clandestinamente. No fundo, no fundo, escondido entre escombros, e não a flor da pele. Acreditará que a ama, porque sentirá saudades. Não distingue saudade de necessidade. Não atenta ao fato de que saudade a gente sente até da professora da creche, sente de tanta gente, de tanta coisa. Saudade pode ser nostalgia, pode ser lembrança, pode ser falta e medo: precisa sentir necessidade!

Talvez, se tivesse coragem, se confessasse a letargia, pudessem juntos reinventar a mágica, a palavra, o amor. Não confessa por que tem medo de arriscar o que foi conquistado, o que foi construído: mas já não está fazendo, ao seu jeito, com seu gesto? não está fazendo, ao ignorar o esgotamento, ao deixá-lo morrer?


amar é como regar uma árvore já seca, esperando que ela floreça.


27.10.10

"Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
sua espada coruscante, seu formidável
poder de penetrar o sangue e nele imprimir
uma orquídea de fogo e lágrimas.
Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
(...)"

Carlos Drummond de Andrade

25.10.10

O sacrifício


As primeiras imagens do último filme de Tarkovsky, O sacrifício, mostram um pai com seu pequeno filho embaixo de uma árvore seca. Ele conta para a criança a estória de um monge que sobe uma colina para regar uma árvore seca para que um dia florecesse.

Alexander é um professor aposentado, intelectual desiludido diante dos avanços da ciência, o progresso técnico, com a perda de espiritualidade frente ao materialismo contemporâneo, o consumismo desenfreado que transformou tudo comercializável:

"(...)O homem sempre se defendeu. De outros homens, da Natureza da qual faz parte. Ele violou constantemente a Natureza. O resultado é uma civilização baseada na força, no poder, no medo e na dependência. Tudo o que o nosso chamado ‘progresso técnico’ nos deu é um tipo de conforto, uma espécie de padrão e instrumentos de violência para mantermos o nosso poder. Somos uns selvagens! Usamos o microscópio com se fosse um bastão. Não. É errado… os selvagens são mais espirituais que nós. De cada vez que fazemos uma descoberta científica, pomo-la logo ao serviço do mal. E quanto ao princípio, alguns homens sábios disseram uma vez que o pecado é desnecessário. Se assim é, então toda a nossa civilização está baseada no pecado do princípio ao fim. Conquistámos uma desarmonia terrível, um desequilíbrio, se quiseres, entre o nosso desenvolvimento material e espiritual. Há algo de errado com a nossa cultura, ou seja, com a nossa civilização.

[…]
Mas meu Deus, que cansado estou desta conversa!
‘Words, words, words!’ Só agora percebo o que Hamlet queria dizer.
Estava simplesmente rodeado de pessoas sem interesse.Também eu.
Mas porque falo assim? Se alguém parasse de falar e fizesse finalmente algo, para variar.
Ou pelo menos, tentasse. "


Diante à ameaça de uma guerra nuclear que prevê em sonho-alucinação (a essa altura, não há referências para distinguir sonho e realidade) , ele, ateu, faz uma oração e uma promessa, por todos os que estão cheios de medo: se ajoelha e faz sua súplica, coloca a própria ordem de sua vida em sacrifício, rompe com sua vida passada: destruirá sua casa, abdicará do filho que tanto ama, "se tudo voltar a ser como era antes ...". Fecha-se em silêncio, não pronunciará mais nenhuma palavra. Emudece. Está indo além de si. É seu sacrifício da vida como ela se encontra, em sua letargia, para que ela própria possa perpertuar-se. Para que possa outra vez florecer. Seu gesto extremo, desesperado, sua ruptura para que a vida possa expandir-se para além, para romper com a manutenção do hábito, para a vida como possibilidade de reinvenção.

O sacrifício é um gesto de repúdio a dessacralização da palavra, à palavra que se torna vazia de significado, que é apenas desespero e medo dos intervalos de silêncio. Tarkovsky se apóia no silêncio. "Aprender a amar a solidão. Ficar mais sozinho consigo mesmo. O individio deve aprender a ser como uma criança, que não signifca estar sozinho. significa não se aborrecer consigo mesmo. O que é um indício muito perigoso, quase uma doença.", pelas palavras do diretor.


O sacrifício é um elogio ao absurdo contra a ordem naturalizada das coisas. Ao gesto de regar uma árvore morta; fazer amor com uma mulher de poderes mágicos; um gesto contra o medo. É antes, elogio à palavra e ao amor: não à palavra antítese do silêncio, que se tornou sinônimo de incomunicabilidade. A palavra que é silêncio. Sua capacidade de tirar as coisas do lugar, como o necessário sacrifício do personagem: emudecer. Ao amor, não ao amor por medo da solidão: ao amor na sua dupla dependência, um amor que é regar uma árvore morta na esperança que ela floreça, um dia, porque "todo presente é um sacrificio.".

No final do filme, o filho está debaixo da mesma árvore, que ainda não floresceu. Repete as palavras do pai: "No princípio era verbo". E faz sua primeira pergunta por palavras: porque, papai?
O pai não está lá para responder.

A música, não à toa, é A Paixão Segundo São Mateus, de Johann Sabastian Bach. No evangelho de Mateus, quando Cristo, sozinho no Monte das Oliveiras, pergunta ao Pai se o cálice não pode ser afastado dele, o Pai não responde.

Mas a pergunta fica: você regaria uma árvore morta esperando que, um dia, ela floreça?


O sacrifício é, ainda, um elogio à esperança.

Imagens do final do filme.
http://www.youtube.com/watch?v=BP2pzLZnx1o


Obs.: Revisitando o meu próprio blog, vi essa postagem, de 2007, também sobre o sacrifício:

http://acharneca.blogspot.com/2007/04/offret-aka-le-sacrifice-de-andrei.html

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