eu quero falar da morte.
eu não apenas quero, não apenas desejo. é necessário. apesar dos tantos textos informativos, enciclopédicos e atas de terapias de grupo, os literários, prosa e verso, muito mais belos e instrutivos do que este meu, que já começa mal, enfadonho. Estes textos cheios de desculpas por existir, logo em seu prólogo, são mesmo medonhos. Mas é necessário que eu aprenda, que me seja um exercício. Que não seja de valia para alguém, como são os exercícios de matemática feitos no colegial.
eu costumo ler antes de escrever. Tudo que escrevo e que soa bobagem e é mesmo uma besteira, não significa que não tenha sido pensado. Meticulosamente, apesar das falhas de linguagem, essas malditas falhas técnicas. eu preciso dizer algo à morte. e não posso contempla-la. perder meus avós em tão poucos meses, um logo após o outro, em tão pouco tempo. é tão usual, mas perder alguém tão de perto, vê-lo perder pouco a pouco a força que o mantem de pé, ve-lo perder a ortografia na fala, as palavras sairem emboladas, não decifrar o que sai de sua voz. suas mãos perderem a autonomia, as pernas, a mobilidade. Vê-la com a pele amarelada, o sufoco, a falta de ar. e não poder fazer nada. retirar dos seus móveis os objetos que guardarei para os meus netos, a porcelana com mais de cinquenta anos que ficarão guardadas por mais cinquenta, talvez. tudo exposto, tudo no chão. tudo que estava tão cuidadosamente guardado em sua casa imensa de tantos quartos e tantos armários, tantos móveis, tantas coisas, estão agora espalhadas no chão. e o tempo, deixando cicatrizes em tudo, desde a pele dela e a minha, até as rachaduras nas suas belas porcelanas que enfeitavam como quadros as paredes.
o que fica e deixa também suas cicatrizes menos superficiais, amor. o amor faz os nós. o amor desata-os outra vez.
enquanto guardo suas coisas em jornais, para lembrá-la (e tambem ao meu avô), me pergunto o que deixarei para os meus netos, o que deixarei para quem vier. e sinto que esta pergunta é uma herança dela, e me agrada seu legado. não podemos ficar embrulhados em jornais.
eu não apenas quero, não apenas desejo. é necessário. apesar dos tantos textos informativos, enciclopédicos e atas de terapias de grupo, os literários, prosa e verso, muito mais belos e instrutivos do que este meu, que já começa mal, enfadonho. Estes textos cheios de desculpas por existir, logo em seu prólogo, são mesmo medonhos. Mas é necessário que eu aprenda, que me seja um exercício. Que não seja de valia para alguém, como são os exercícios de matemática feitos no colegial.
eu costumo ler antes de escrever. Tudo que escrevo e que soa bobagem e é mesmo uma besteira, não significa que não tenha sido pensado. Meticulosamente, apesar das falhas de linguagem, essas malditas falhas técnicas. eu preciso dizer algo à morte. e não posso contempla-la. perder meus avós em tão poucos meses, um logo após o outro, em tão pouco tempo. é tão usual, mas perder alguém tão de perto, vê-lo perder pouco a pouco a força que o mantem de pé, ve-lo perder a ortografia na fala, as palavras sairem emboladas, não decifrar o que sai de sua voz. suas mãos perderem a autonomia, as pernas, a mobilidade. Vê-la com a pele amarelada, o sufoco, a falta de ar. e não poder fazer nada. retirar dos seus móveis os objetos que guardarei para os meus netos, a porcelana com mais de cinquenta anos que ficarão guardadas por mais cinquenta, talvez. tudo exposto, tudo no chão. tudo que estava tão cuidadosamente guardado em sua casa imensa de tantos quartos e tantos armários, tantos móveis, tantas coisas, estão agora espalhadas no chão. e o tempo, deixando cicatrizes em tudo, desde a pele dela e a minha, até as rachaduras nas suas belas porcelanas que enfeitavam como quadros as paredes.
o que fica e deixa também suas cicatrizes menos superficiais, amor. o amor faz os nós. o amor desata-os outra vez.
enquanto guardo suas coisas em jornais, para lembrá-la (e tambem ao meu avô), me pergunto o que deixarei para os meus netos, o que deixarei para quem vier. e sinto que esta pergunta é uma herança dela, e me agrada seu legado. não podemos ficar embrulhados em jornais.
